Comportamento

Sorria!
O bom humor relaxa, fortalece as defesas do organismo e
é capaz até de salvar sua vida. Saiba o que você pode fazer por ele
- e o que ele pode fazer por você
“Procure ver o lado bom das coisas ruins.” Essa
frase poderia estar em qualquer livro de auto-ajuda ou parecer um conselho bobo
de um mestre de artes marciais saído de algum filme ruim. Mas, segundo os
especialistas que estudam o humor a sério, trata-se do maior segredo para viver
bem. Não é difícil encontrar exemplos que comprovam que eles têm razão.
Como um palmeirense poderia manter o alto-astral depois que seu time perdeu a
final da Taça Libertadores da América? Fácil. É só lembrar que o
Palmeiras eliminou o arqui-rival Corinthians nas semifinais da competição.
Inversamente, a mesma situação pode servir para manter o bom humor do
corinthiano. Afinal, embora seu time tenha sido eliminado, o Palmeiras acabou
morrendo na praia. Não se trata de ver o mundo com os olhos róseos de
Pollyanna. Esse tipo de flexibilidade para encarar os acontecimentos ruins não
garante apenas algumas risadas: pode fazer bem para a saúde.
O bom humor é, antes de tudo, a expressão de que o
corpo está bem. Ele depende de fatores físicos e culturais e varia de acordo
com a personalidade e a formação de cada um. Mas, mesmo sendo o resultado de
uma combinação de ingredientes, pode ser ajudado com uma visão otimista do
mundo. “Um indivíduo bem-humorado sofre menos porque produz mais endorfina,
um hormônio que relaxa”, diz o clínico geral Antônio Carlos Lopes, da
Universidade Federal de São Paulo. Mais do que isso: a endorfina aumenta a tendência
de ter bom humor. Ou seja, quanto mais bem-humorado você está, maior o seu
bem-estar e, conseqüentemente, mais bem-humorado você fica. Eis aqui um círculo
virtuoso, que Lopes prefere chamar de “feedback positivo”. A endorfina também
controla a pressão sangüínea, melhora o sono e o desempenho sexual.
(Agora você se interessou, né?)
Mas, mesmo que não houvesse tantos benefícios no bom
humor, os efeitos do mau humor sobre o corpo já seriam suficientes para
justificar uma busca incessante de motivos para ficar feliz. Novamente Lopes
explica por quê: “O indivíduo mal-humorado fica angustiado, o que provoca a
liberação no corpo de hormônios como a adrenalina. Isso causa palpitação,
arritmia cardíaca, mãos frias, dor de cabeça, dificuldades na digestão e
irritabilidade”. A vítima acaba maltratando os outros porque não está bem,
sente-se culpada e fica com um humor pior ainda. Essa situação pode ser
desencadeada por pequenas tragédias cotidianas como um trabalho inacabado ou
uma conta para pagar , que só são trágicas porque as encaramos desse modo.
Evidentemente, nem sempre dá para achar graça em
tudo. Há situações em que a tristeza é inevitável e é bom que
seja assim. “Você precisa de tristeza e de alegria para ter um convívio
social adequado”, diz o psiquiatra Teng Chei Tung, do Hospital das Clínicas
de São Paulo. “A alegria favorece a integração e a tristeza propicia a
introspecção e o amadurecimento.” Temos de saber lidar com a flutuação
entre esses estágios, que é necessária e faz parte da natureza humana. O
humor pode variar da depressão (o extremo da tristeza) até a mania (o máximo
da euforia). Esses dois estados são manifestações de doenças e devem ser
tratados com a ajuda de psiquiatras e remédios que regulam a produção de
substâncias no cérebro. Uma em cada quatro pessoas tem, durante a vida, pelo
menos um caso de depressão que mereceria tratamento psicológico.
Enquanto as conseqüências deletérias do mau humor são
estudadas há décadas, não faz muito tempo que a comunidade científica passou
a pesquisar os efeitos benéficos do bom humor. O interesse no assunto surgiu há
vinte anos, quando o editor norte-americano Norman Cousins publicou o livro
Anatomia de uma Doença, contando um impressionante caso de cura pelo riso. Nos
anos 60, ele contraiu uma doença degenerativa que ataca a coluna vertebral,
chamada espondilite ancilosa, e sua chance de sobreviver era de apenas uma em
quinhentas. Em vez de ficar no hospital esperando para virar estatística, ele
resolveu sair e se hospedar num hotel das redondezas, com autorização dos médicos.
Sob os atentos olhos de uma enfermeira, com quase todo o corpo paralisado,
Cousins reunia os amigos para assistir a programas de “pegadinhas” e
seriados cômicos na TV. Gradualmente foi se recuperando até poder voltar
a viver e a trabalhar normalmente. Cousins morreu em 1990, aos 75 anos.
Se Cousins saiu do hospital em busca do humor, hoje há
muitos profissionais de saúde que defendem a entrada das risadas no dia-a-dia
dos pacientes internados. O mais radical deles é Patch Adams, um médico
americano que começou a construir o primeiro “hospital bobo” do mundo.
Adams quer que os doentes dêem risadas enquanto se recuperam. Uma boa
gargalhada é um método ótimo de relaxamento muscular. Isso ocorre porque
os músculos não envolvidos no riso tendem a se soltar está aí a explicação
para quando as pernas ficam bambas de tanto rir ou para quando a bexiga se
esvazia inadvertidamente depois daquela piada genial. Quando a risada acaba, o
que surge é uma calmaria geral. Além disso, se é certo que a
tristeza abala o sistema imunológico, sabe-se também que a endorfina, liberada
durante o riso, melhora a circulação e a eficácia das defesas do organismo.
A alegria também aumenta a capacidade de resistir à
dor, graças também à endorfina. Vários estudos já comprovaram isso, alguns
deles bem engraçados. Uma dessas pesquisas colocou um grupo com as mãos dentro
de um balde de água gelada enquanto passava um filme humorístico. Essas
pessoas ficavam com as mãos na água mais tempo que outros sem estímulo
divertido.
Evidências como essa fundamentam o trabalho dos
Doutores da Alegria, que já visitaram 170 000 crianças em hospitais. As invasões
de quartos e UTIs feitas por 25 atores vestidos de “palhaços-médicos” não
apenas aceleram a recuperação das crianças, mas motivam os médicos e os
pais. A psicóloga Morgana Masetti acompanha os Doutores há sete anos. “É evidente
que a trabalho diminui a medicação para os pacientes”, diz ela.
O princípio que torna os Doutores da Alegria engraçados
tem a ver com a flexibilidade de pensamento defendida pelos especialistas em
humor aquela idéia de ver as coisas pelo lado bom. “O clown não segue a lógica
à qual estamos acostumados”, diz Morgana. “Ele pode passar por um balcão
de enfermagem e pedir uma pizza ou multar as macas por excesso de velocidade.”
Para se tornar um membro dos Doutores da Alegria, o ator passa num curioso teste
de autoconhecimento: reconhece o que há de ridículo em si mesmo e ri disso.
“Um clown não tem medo de errar pelo contrário, ele se diverte com
isso”, diz Morgana. Nem é preciso mencionar quanto mais de saúde
haveria no mundo se todos aprendêssemos a fazer o mesmo.
Termômetro
do ânimo
O
humor é como a temperatura do corpo: não deve atingir limites extremos
Mania
O
bom humor exagerado pode ser acompanhado por tagarelice e megalomania, que
tornam o convívio social insuportável.
Hipomania
Uma
forma mais leve de mania, em que a euforia é menor. Quem tem hipomania
é otimista demais e tende a querer desafiar os outros.
Hipertimia
O
indivíduo fica alegre e agitado, com muita disposição e pouca necessidade de
descanso. Em geral, seu comportamento não causa prejuízos.
Neutro
O
humor de uma pessoa saudável varia muito durante o dia, mas sempre entre as
fronteiras da hipertimia e da hipotimia.
Hipotimia
Lembra-se
daquele cara que se vestia de preto e curtia um som melancólico? O hipotímico
não sente tanto prazer nas coisas, mas fica confortável na sua
"tristeza".
Distimia
É uma
depressão leve. O distímico costuma ser rabugento, irritável e pessimista. Não
gosta de nada e afasta amigos e pretendentes.
Depressão
A
tristeza profunda é acompanhada de uma sensação de vazio. Um deprimido não
sente prazer e se irrita fácil. O pessimismo toma conta de tudo.
Hospital ou circo?

Trocando remédios por brincadeiras, os Doutores da
Alegria ajudam as crianças a suportar o hospital - e a sair de lá
Imagine um hospital em que há um salão de dança, um
teatro e até espaço para meditação. A entrada fica no meio de dois pés
gigantes, a sala de exames oculares parece um enorme olho de vidro e a de exames
auriculares adivinhe tem a forma de um imenso ouvido. Tudo num edifício tão
colorido que parece mais um parque de diversões.
Esse é o sonho que Patch Adams vem acalentando nos últimos trinta anos,
desde a época em que chocava os colegas e professores da faculdade de Medicina
vestindo-se de palhaço para fazer os pacientes rir. O projeto é ousado:
trocar a sisudez dos médicos e os planos de saúde por atendimento afetuoso e
gratuito. O nome do hospital? "Gesundheit!" a palavra maluca que os
alemães dizem quando alguém espirra. Significa "saúde". O local? A
cidade de Pocahontas, nos Estados Unidos isso não é uma piada, a
cidade tem mesmo o nome da personagem do filme da Disney.
Procurado o médico, que foi encarnado por Robin
Williams no filme Patch Adams, o Amor É Contagioso. Comprovamos que até ele
tem seus dias de mau humor. Por telefone, Adams disse, com rispidez, que estava
sem tempo para entrevistas.
Na TV:
Patch Adams, o Amor É Contagioso, de Tom Shadyack, 1998. Destaque do mês no canal por assinatura Telecine 1.
Na Internet:
Links de humor: www.uni-duesseldorf.de/