O gato e a Saúde mental

 

         Trabalhamos alguns anos com doentes mentais, na Colônia Juliano Moreira, Jacarepaguá, Rio de Janeiro. A doença mental não é equivalente à doença física, embora fortaleça as condições para que elas se manifestem. A doença mental às vezes se apresenta como uma alienação do indivíduo às coisas que estão acontecendo à sua volta, ou a um super interesse. Alguns são tão calmos que chegam ao estado de depressão, ou na outra ponta, tão ativos que agridem, pois contêm uma grande ansiedade e não podem extravasar. Enfim, é uma doença de extremos. É a energia mal canalizada, mal distribuída.

         Começava os meus trabalhos num dos núcleos de tratamento da colônia. No meu primeiro dia, logo ao chegar encontrei uma cena muito curiosa. Três mulheres brigavam com um senhor que fazia o trabalho de carrocinha da prefeitura, apanhando gatos nos núcleos. A  briga era porque  as mulheres queriam que deixassem aqueles gatinhos, pois elas gostavam deles.

         Choravam desesperadamente com a separação. Como eram três gatinhos, interferi. Conversei com o condutor da possibilidade de deixar os três gatos. Ele falou que tinha ordens para levar os gatos, a não ser que eu desse uma contra-ordem por escrito. Ora, gatos.!! Assinei na mesma hora as contra-ordens, afinal três gatos não iriam alterar em nada e fariam as mulheres mais felizes. Até eu achei os gatinhos simpáticos. A carrocinha foi embora e me direcionei a porta do núcleo. Ao abrir a porta, dois outros gatos saíram correndo. Bem, são 5 gatos. Comecei a andar pelo corredor um pouco escuro e fiquei espantado, pois ali havia por baixo alguns 15 gatos, sem contar os últimos 5 falados. Comecei a pensar na besteira que fiz. Chequei ao pátio. Incontáveis gatos (quando falo gatos, generalizo machos e fêmeas) por todos os lados. Havia um total de 2 gatos por internas (pacientes). Telefonei para o núcleo mais próximo e perguntei se lá havia gatos. O supervisor falou que hoje era segunda-feira e a carrocinha tinha apanhados todos, mas que durante o correr da semana com certeza haveria outro tanto. Pensei. Até a semana que vem teremos o dobro de gatos de hoje. Puxa..!

         Telefonei para o psiquiatra chefe da colônia para pedir uma orientação ou explicação para a grande população de gatos. Ele me deu de pronto a explicação mais óbvia: Os gatos gostam da colônia pois encontram alimentação fácil, pois as internas deixam comida por todo lado. Aceitei a explicação mais ou menos. Ficou em mim uma interrogação.

         Voltando para casa, de motocicleta, vim pensando nos gatos. De repente me veio a lembrança de uma senhora, tida como maluca, perto da minha casa, que vivia cercada de gatos. Gato no telhado, na porta, na cozinha, no telhado, enfim , na casa toda. Era uma convivência saudável. Bem, não era apenas as internas da colônia que os gatos gostavam. Gostavam também das externas.

         Chegando em casa, à noitinha, encontro minha filha lendo um livro de histórias infantis: “Alice no país das maravilhas”. A minha mente estava ligada em gatos e vejo na capa do livro exatamente um gato. Como era um livro grande, de figuras grandes, letras grandes, comecei a olhar e ler. Para meu espanto, estava ali parte da explicação da relação gatos x doentes mentais. Logo no início da narrativa, Alice se depara com um acontecimento estranho. Duas senhoras estavam na cozinha jogando uma criança recém-nascida como se fosse uma peteca de mão-em-mão. Coisa maluca. No canto do fogão , um gato piscou o olho para Alice, como se dissesse: Não se preocupe, aqui eu controlo tudo. Saindo dali Alice encontrou novamente o gato, que começou a se materializar em cima de uma árvore e perguntou-lhe: Onde mora o Chapeleiro ou a Lebre?. O gato respondeu-lhe: - Você pode ir para lá ou para cá, não importa com quem encontrar, pois ambos são malucos. E de malucos eu entendo.

         Para quem como eu , ainda há poucos instantes estava na pergunta dos porquês dos gatos, encontrei num livro infantil motivos suficiente para continuar nas minhas buscas e não me satisfazer com a resposta do meu superior.

         Meus pensamentos iam longe em relação aos gatos. Busquei na história da humanidade a ligação dos gatos com os seres humanos. No antigo Egito, era sagrado. Na idade média acompanhavam os bruxos, que nada  mais eram que os médiuns de hoje ou os esquizofrênicos doentes mentais. Mas todo bruxo que se prezava tinha um gato como companheiro. Por que?

         Passaram-se alguns dias e me defronto com um ato de maldade de alguns moleques perto de um supermercado do bairro. Um filhote de gato, meio assustado, foi pego pelo rabo e lançado a grande altura. O coitado caiu no meio do asfalto. Pensei que tivesse morrido, mas saiu meio tonto. Nisto um caminhão de entrega passa na rua e o gatinho fica entre as rodas traseiras, debaixo do eixo. Pela minha posição de olhar pensei que tivesse passado por cima. Mas para nova surpresa o gato saiu mais tonto ainda. Alguém falou: gato não morre fácil não. Tem 7 vidas. Quando ouvi a palavra 7 vidas, algo mexeu no meu inconsciente e coloquei este dado na pesquisa dos gatos. Pareceu-me  muito importante, afinal o 7 esconde algo de místico. Olha os bruxos aí

         Mas quando estamos ligados às coisas chegam até nós. Domingo cedo fui comprar pão. Olhando os jornais pendurados na bancas, li: O gatuno foi preso. Novamente o gato na minha vida, só que na forma de gatuno. Lembro-me agora que as pessoas que roubam são chamadas de gatunos. Em outras palavras, quem rouba é gato. Por que? Coitado do gato. Mas em certas casas, seus moradores costumam fazer “gatos”, para roubar energia elétrica. Fiz a associação do gatuno que rouba coisas dos outros com as pessoas que roubam energia elétrica. Fica a palavra “roubar”. Certo dia fui visitar uma senhora idosa. Ao entrar em sua casa fui recepcionado logo a porta, pelo seu gato. Ele fez o que todo gato faz. Passou o pêlo nas minhas pernas, arrepiando-se e levantando o rabo. Coisa que todo gato faz, e nós não damos a devida importância. Mas, como estava atento ao assunto gato, fiquei a observar. Logo após, o bichano foi ao colo de sua dona, e deitou-se carinhosamente. Porque ele fez isto?  É , todo gato faz.

         Voltando à colônia de doentes mentais, trabalhando com os internos, percebi que eles andavam muito e falavam muito o tempo todo. Tinha no meu modo de ver muita energia. Como, na época estava estudando a máquina Kirlian, fotografando o campo energético das pessoas, também fotografava o campo energético dos internos. Para minha “surpresa” eles apresentavam um campo energético parecido com as crianças. Muita energia. Neste instante, a palavra energia teve para mim um outro significado. Afinal, o gato é o modo que as pessoas roubam energia das concessionárias. Poderia cachorro, rato, boi, mas é gato. As internas apresentam muita energia, que as tornam agitadas. Os gatos se aproximam, num processo  natural de retirar o excesso energético, em outras palavras “roubar”, pois não pedem permissão para tal. Estava fechado o meu pensamento de pesquisa. O nosso inconsciente coletivo associa a palavra gato ao roubo exatamente por este fato. O gato tem 7 vidas devido ao fato de ter acumulado em si maior quantidade de energia vital, haurida das pessoas, então tem mais vitalidade. Os bruxos, da idade média, que trabalham com energia vital tinham os gatos por perto exatamente por serem depósitos energéticos. A senhora idosa, deficiente em energia tinha o gato próximo , pois ele retirava das pessoas os excessos energéticos e traziam para ela. Quando passou nas minhas pernas, ele fez exatamente isto.

         Com o tempo fui observando que os gatos se aproximam naturalmente das pessoas ricas energeticamente, sugando-lhe os excessos e transferindo para os necessitados. Desde então tenho informado às pessoas agitadas e hiperativos para que não afastem os gatos. Eles são úteis para o nosso equilíbrio energético e mesmo para aqueles debilitados , pois transferem para eles o que sobra nos outros.

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